23 agosto 2006

Rifa-se um coração

Clarice Lispector


Rifa-se um coração quase novo.

Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.

Um coração moleque
que insiste em pregar
peças no seu usuário.

Rifa-se um coração
que na realidade
está um pouco usado,
meio calejado,
muito machucado
e que teima em alimentar
sonhos e cultivar ilusões.

Um pouco inconseqüente,
que nunca desiste
de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração
que acha que Tim Maia
estava certo quando escreveu...
"Não quero dinheiro,
eu quero amor sincero,
é isso que eu espero..."

Um idealista...
Um verdadeiro sonhador...

Rifa-se um coração
que nunca aprende.
Que não endurece,
e mantém sempre viva
a esperança de ser feliz,
sendo simples e natural.

Um coração insensato,
que comanda o racional,
sendo louco o suficiente
para se apaixonar.

Um furioso suicida
que vive procurando
relações e emoções verdadeiras.

Rifa-se um coração
que insiste em cometer
sempre os mesmos erros.

Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo
em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes,
revê suas posições arrependido
de palavras e gestos.

Este coração tantas vezes
incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.

Rifa-se este desequilibrado emocional,
que abre sorrisos tão largos
que quase dá pra engolir as orelhas,
mas que também arranca lágrimas
e faz murchar o rosto.

Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado
por quem gosta
de emoções fortes.

Um órgão abastado,
indicado apenas
para quem quer viver
intensamente
e, contra indicado
para os que apenas
pretendem passar pela vida
matando o tempo,
defendendo-se das emoções.

Rifa-se um coração
tão inocente
que se mostra
sem armaduras
e deixa louco
o seu usuário.

Um coração
que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer
na hora da prestação de contas:
"O Senhor pode conferir.
Eu fiz tudo certo, só errei
quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco
coração de criança
que insiste em não endurecer,
e se recusa a envelhecer".

Rifa-se um coração,
ou mesmo troca-se por outro
que tenha um pouco
mais de juízo.

Um órgão mais fiel
ao seu usuário.

Um amigo do peito
que não maltrate tanto
o ser que o abriga.

Um coração que não seja
tão inconseqüente.

Rifa-se um coração
cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.

Um verdadeiro
caçador de aventuras
que ainda não foi adotado,
provavelmente,
por se recusar a cultivar
ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.

Oferece-se
um coração vadio,
sem raça, sem pedigree.

Um simples
coração humano.

Um impulsivo membro
de comportamento
até meio ultrapassado.

Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar,
mas vez por outra, constrange
o corpo que o domina.

Um velho coração
que convence
seu usuário
a publicar
seus segredos
e a ter a petulância
de se aventurar
como poeta.